Talvez você não valha um texto meu.
Não que meus textos tenham grande valor. Mas talvez eu
concorde que você não valha, simplesmente pelo fato de que, mesmo não sendo de
grande valor, meu texto representa também meu tempo, e tempo você já tirou
muito de mim.
Alguma vez isso foi valioso para você?
Em algum momento você chegou a entender?
Eu te falei várias vezes, mas acredito que você nunca tenha
conseguido compreender. Eu não queria te conhecer. E te conhecer foi um acaso, caso
premeditado que, no fim, nós dois queríamos.
Eu sempre enxerguei além do que você me mostrava. Você
percebia?
Quando me deitava no seu colo, e olhava fixamente no seu
olho, era para tentar descobrir o que você não conseguia me mostrar. E eu
afirmo que muito você não me mostrava, porque sua zona segura era igual a
minha.
Eu tentava desvendar seus mistérios mesmo antes de te ver
pela primeira vez. Honestamente, se não fosse por isso, não teríamos conversado
nem por uma semana com aquele papo que você me mandava. Recém divorciado,
depois de anos sem flertar com alguém: você era o exemplo claro de homens que
eu não me interessaria. Ainda assim, sentia que tinha mais.
E fui te conhecendo. Era um jogo de xadrez com movimentos
calculados. Eu nunca sabia qual seria seu próximo passo, ou a próxima brecha.
Era divertido, era empolgante, era aliviante. Joguei como você. Mas talvez meu
erro tenha de ter sido descuidada. Será?
Suas séries eram boas. Uma até assinei HBO para terminar, e
a outra não sei o final, porque era para termos assistido juntos. Em
contrapartida, você tinha gostos duvidosos para filmes, mas acho que era
proposital.
Um mês antes daquela fatídica segunda-feira eu estava
decidida a ir embora. Você sabia que tinha errado, e sabia tanto que fez
parecer que nós dois estávamos vivendo uma edição de Malhação, ou de alguma
comédia romântica dos anos 2000.
Eu deveria ter ido embora naquela sexta-feira. Era minha
chance de fazer o movimento de partida, e eu tinha todas as vantagens,
incluindo a de não estar apegada a você. E você tinha todas as desvantagens,
incluindo a de ter mentido para mim. Entretanto, você foi contra as regras.
Enquanto eu pensava no meu próximo movimento, você disse que meu jogo era o
mais bonito, que nunca havia conhecido um igual, e que não achava que jogaria
assim de novo algum dia. Não te dei xeque-mate quando pude, porque quis
estender o tempo da nossa partida. Foi você quem pediu.
“Eu quero te dar o espaço que você pediu para pensar. Mas é
muito estranho viajar sem poder te mandar áudios cantando no carro. É muito
ruim saber que você não vai me responder. Eu não quero parar de falar com você.
Eu quero continuar te conhecendo. Eu espero que você deixe eu continuar te
conhecendo”.
Eu lembro da sensação de estar decepcionada.
Fiquei esperando por tanto tempo, e talvez esteja até hoje,
achando que você iria me mandar pelo menos uma mensagem.
Nunca pedi demais. Essa é uma das maiores ironias da minha
vida. Parece que eu peço muito para todo mundo, mas eu sempre peço tão pouco.
E, para você, no final, a única coisa que eu pedi foi um adeus para terminar o
jogo de maneira justa. Mas nem isso você foi capaz de me dar, mesmo depois de
tudo.
E o que seria tudo? Talvez para você tenha sido nada. Para
mim, o dia que você decidiu não me responder mais foi na mesma semana em que a
gente iria entrar em um carro, ir para um AirBnb, e passar 7 dias juntos de
férias. Para mim, você foi a pessoa que eu confiei em meio a uma pandemia
mundial. Para mim, você foi a pessoa que eu trouxe para dentro da minha casa.
Pode não ter sido tudo, mas foi algum tanto. E para você pode ter sido nada,
só que eu merecia – pelo menos – um adeus oficial.
-
Dos vários áudios que eu te mandei, dos vários minutos que
você me ouviu falar, preenchidos por devaneios, música, discussões, conversas
triviais, ou sérias do dia a dia, e estratégias para jogar Fortnite, teve um
que eu nunca te mandei. Este texto é a transcrição dele.
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