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Parte das minhas sessões da terapia tem
sido sobre a minha falta de conseguir me mostrar, de falar o que eu penso, de
ser eu mesma. Descobrir quem eu sou. Como se, por todos esses anos, eu tivesse
usado uma máscara e vagado pelas situações que fui colocada, e eu me adaptei a
elas. Fui o que precisei ser, o quiseram que eu fosse.
Comecei a tratar depressão ano passado
e uma das teorias é a de que – inicialmente - como não conseguia falar e me
expressar, entrei cada vez mais dentro de mim, e afundei aqui dentro. Criei
todo um mundo que existia somente na minha mente. Ansiava pela hora de dormir,
assim viajaria para lá. Não queria acordar, porque teria que voltar para a
realidade. De vez em quando acabava desancorando sem querer durante o dia,
durante a aula, enquanto lavava a louça. Por vezes achavam que eu fingia não
ouvir, mas realmente não estava, porque ficava presente só de corpo, com a minha
mente dissociando.
Nunca fiz de propósito, nunca escolhi
não viver na realidade. Tanto não escolhi que nas primeiras sessões, quando
comecei a enxergar as situações em que eu não estava vivendo o presente,
debulhava-me em lágrimas. Poderia nem ter um motivo
concreto. Era com meus pais, com meus melhores amigos, nos meus melhores dates,
nas minhas piores crises, nas minhas piores brigas.
No meu mundo não sou só eu. Meu mundo
sou eu e todos com quem convivo. A diferença é que, aqui dentro, as coisas são
do meu jeito. Noite após noite eu revivia alguma briga ou discussão em que eu
nunca tive voz. Noite após noite eu revivia alguma situação que nunca teve
desfecho. Noite após noite eu revivia algum dia em que fui muito feliz. Noite
após noite eu começava a sofrer antecipadamente pela morte de alguém que eu amo. Sofria até precisar tomar
alguma coisa, ou até chorar tanto que acabava dormindo. Noite após noite eu
imaginava algo que queria muito que acontecesse, que poderia mudar minha vida
para melhor.
Quando estava com alguém, meus pensamentos vagavam numa imensidão que – raramente – era apenas sobre mim. O que será que essa pessoa está realmente pensando? O que ela acha sobre mim? Será que fiz algo de errado? Como devo agir? Como essa pessoa é de verdade? Por que ela está aqui? O que a gente está fazendo? Por quê? E outras variações dependendo da ocasião, e da pessoa. Como não tinha as respostas, imaginava as minhas.
Acho que por muito tempo consegui
disfarçar. De novo, quase sempre fui o que as pessoas queriam e precisavam que
eu fosse. E me escondi. Lembro do dia que - provavelmente pela primeira vez, ou
uma das primeiras vezes – eu estava tão cansada que não me importei que me
vissem de verdade. Foi por volta de um mês antes de começar a ir ao psiquiatra,
e na noite da minha pior crise. Estava na casa do cara que saia na época; tinha
brigado com meus pais. Depois da ligação deles chorei por quase uma hora. Minha
mente zumbia como uma zona de guerra.
Não conseguimos assistir ao filme. Ele
foi estender a roupa. Fiquei parada na varanda e comecei a dissociar olhando
para o teto de madeira. Sentia ele me observando. Lembro de, ao fundo, ouvir
ele me chamar “Carol, você tá bem?”. Olhei para ele: o olho arregalado, a boca entreaberta,
uma camiseta na mão. Falei que sim, e comecei a andar de um lado para o outro.
Dissociei de novo e, a partir daí, fiquei indo e vindo até precisar fazer uma
sessão de última hora com a minha terapeuta no outro dia.
Quando eu enxerguei a boa parte do que
tem sido minha vida desde a infância, meu maior medo foi de um dia perder
completamente o juízo. De um dia não ter mais controle da minha mente, da minha
vida. Eu sempre falo que tenho muitas questões dentro da minha cabeça que
influenciam muito minha forma de agir e reagir, só que perder minha sanidade é
algo que está na lista de coisas que jamais podem acontecer. De acordo com a
minha terapeuta, o pior desfecho é minha depressão piorar, ser muito profunda e
mais difícil de lidar. Estou estabilizada. Estou estabilizando.
Ainda assim, consegue perceber a
dualidade aqui? De um lado temos eu, a estátua vista de fora que nunca
conseguiu agir da sua própria maneira. De outro temos eu novamente e, a estátua
vista de dentro que criou um mundo próprio para conseguir agir da sua maneira.
Qual o ponto de fusão para eu conseguir me libertar? Essa tem sido minha
questão por dias e dias.
Às vezes fico em pânico pensando que
não sei nada sobre mim. Do que eu gosto? Do que eu não gosto? Quais são as
minhas manias? Minha forma de agir? De reagir? Como eu falo? Como me relaciono?
Quais as minhas qualidades? Quais os meus defeitos? Quais os meus valores? O
que eu tolero? E o que é intolerável? Quais são meus medos? Meus segredos? Meus
dons? No que eu sou realmente boa? No que eu sou realmente ruim? Será que eu
sou uma pessoa boa? Será que sou má? Como sou pelo olhar dos outros?
É claro, sei algumas respostas para
essas perguntas. Eu gosto de gatos, de Marvel e de sorvete, por exemplo. Eu não
gosto de quem pede para eu comparar gato com cachorro, ou Marvel com DC. Eu
tenho mania de não deixar portas de armários, micro-ondas e afins abertas. Eu
sou prática, e geralmente acabo liderando tudo que me envolvo, porque não tenho
paciência para ficar esperando as coisas acontecerem. Quando acontece um
problema, sempre vou pensar nas diferentes formas de resolver (apesar de talvez
eu travar, por conta da minha ansiedade). Se fizerem algo que me deixa
desconfortável, ou vou me fechar completamente e me afastar, ou vou estourar (estou
no processo de achar um meio termo). Quando me elogiam, fico com vergonha.
Minha fala é cheia de gírias e
palavrões. Meus relacionamentos são chuvas que podem ser boas, ou fortes demais
até causar estragos. Eu tolero quando as pessoas erram comigo, vezes demais,
até. Só que não tolero quando ofendem o direito dos outros. Tenho medo de
morrer e de perder quem eu amo. Canto e sou professora, herdei da minha mãe os
dois. Herdei do meu pai a parte de cozinhar, mas não chega a ser um dom igual
ao dele, o meu está mais para um hobbie. Ser boa ou má depende do ponto
de vista (prefiro acreditar que sou boa, mas quem não prefere?).
E mesmo sabendo pouco, ou não sabendo
tanto, ainda acho que sou extremamente previsível pelo olhar de quem convive
comigo. Ficarei bastante feliz e rindo abobadamente com qualquer coisa que me
mandarem sobre gatos. Farei dancinhas e ficarei cantarolando no carro. Ou em
qualquer lugar. Deixarei pessoas chateadas por não responder no WhatsApp, e
aparecerei tempos depois pedindo desculpas – sinceras – por ter sumido. E as
pessoas acharão que não vale a pena falar comigo, porque eu sempre acabarei desaparecendo.
Direi que quero apenas uma taça de vinho, e beberei a garrafa toda. Sempre me
atraso, 5 ou 15 minutos. Surtarei por Demi Lovato, com 12 ou com 36 anos. Farei
convites mesmo sabendo que, muito provavelmente, não vou cumprir. Tomarei a
liderança nos trabalhos em grupo, porque ninguém tem proatividade. Direi que
não falarei nada, porque estou cansada de sempre tomar a iniciativa, mas muito
provavelmente vou acabar fazendo algo. Invadirão meu espaço pessoal e, assim,
eu fico – constantemente - em estado de defesa. Todos os dias reclamarei muito
no Twitter. Farei muito mais do que eu precisaria. Minha chefe sabe que pode
pedir o que quiser que eu darei um jeito de entregar, e que independentemente
do horário que ela pedir, sempre entregarei tudo no prazo, não importando como
farei isso.
Sempre que meus amigos me chamarem para
comer, minha escolha será BK. Sempre que um date me chamar para sair, minha
sugestão será tomar sorvete. Eu tenho uma roupa específica para primeiros
encontros, e só não a usei uma única vez. Coloco o alarme para despertar e
levanto apenas uma hora depois, todos os dias. Irei chorar com animais de rua.
Estarei com medo da chuva, mesmo se não demonstrar. Vou sair com caras que meus
amigos dirão “é sério mesmo?!”. Sempre. E sempre que eu for contar algo sobre
alguém que saí, eles nunca lembrarão sobre quem eu estou falando. Cozinharei
mais macarrão do que vou comer. Ficarei com peso na consciência por ter jogado
alguma comida fora. Minha média de dates será de 3-5 encontros. Eles terminarão
comigo falando que precisam ficar sozinhos, e aparecerão namorando pouco tempo
depois. O tempo recorde para isso acontecer foi de 3-4 semanas. E o mais
surpreende foi o que casou 10 ou 11 meses depois.
Direi que vou assistir a série que
alguém me recomendou, e isso não vai acontecer. Nunca consigo responder quando
meus pais dizem que me amam no telefone, não porque não amo eles, mas porque
tenho um problema em falar que amo as pessoas, por mais que eu as ame. Gastarei
dinheiro quando eu mais preciso economizar, e economizarei quando mais tenho
dinheiro para gastar. Sempre acharei um absurdo quando alguém diz que não gosta
de água com gás, e sempre ficaria genuinamente feliz quando descubro que alguém
gosta. Beberei pelo menos uma garrafa de água com gás por dia. Darei apelidos
para todos do meu convívio, e chamarei essas pessoas pelo nome/nome completo
quando quero fazer graça, chamar a atenção, ou enfatizar algo que estou
dizendo. Terei neologismos próprios para tentar expressar meus sentimentos
virtualmente.
Ficarei preocupada com as pessoas, por
mais que eu fique brava quando se preocupam comigo. Estarei entediada nas aulas
da faculdade. Ficarei com saudades, e não saberei como expressar quando puder.
Quando estiver conversando com alguém, olharei fixamente em seus olhos para
tentar ler sua alma, ou vou desviar para não deixar que leiam a minha. Pedirei
para brincar de guerra dos dedões. Acordarei mentalizando um dia de paz, e me
estressarei pouco tempo depois. Não me esquecerei de nada, e
acabarei escrevendo sobre tudo um dia. Acharei que sou extremamente previsível,
e que continuarei cometendo os mesmos erros para sempre. Pensarei que vou ser
um fracasso e um fardo para as pessoas. Terei crises existenciais pensando que
não sei nada sobre mim, e farei um texto de quatro páginas contando fatos
apenas meus.
A verdade é que, estátua de fora ou de dentro, moldada ou dissociada, seria impossível não ter criado laços comigo mesma ao longo desses anos. Não gosto de tudo, e não quero mudar tudo que desgosto. Gosto de muito e quero manter tudo que gosto. O que seria nós senão uma junção de clichês e vivências.
Março/2021
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