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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Saudade

Tenho sentido muita saudade.

No começo pensei que seria de algo específico, mas enquanto reflito para escrever este texto, acho que minha saudade é de um acúmulo de coisas que foram perdidas ao longo dos anos.

E acredito que esse é um daqueles textos que seriam intermináveis se assim eu o quisesse, porque quanto mais eu penso, mais lembranças me vêm de coisas que, ao mesmo tempo que penso quase diariamente, evito pensar (provavelmente tentando não me deixar machucar).

Tenho saudade de algumas coisas tão pequenas, e que podem ser tão insignificantes, que não teria como formular para deixar aqui registrado. Mas tenho uma caixa abarrotada de lembranças materiais que vai de uma etiqueta de roupa, até a pétala da rosa que um menino (que eu saí uma vez e nunca mais conversei) me deu.

Tenho saudade de não entender como dinheiro é importante, e de não ficar me preocupando com as minhas finanças.

Tenho saudade de quando eu e meus amigos tínhamos quase o dia todo livre, e podíamos passar a tarde toda na casa um dos outros fazendo nada.

Tenho saudade de ficar na varanda de casa correndo e brincando com as minhas cachorras, Duda e Mel, e os outros 15 gatos que moravam comigo, incluindo a Miyuki e o Balu.

Tenho saudade de chegar em casa e ter comida pronta. E depois me perguntarem o que eu queria jantar.

Tenho saudade dos almoços de domingo na casa da vó. Sempre com alguma fofoca do que meus primos haviam feito no sábado a noite, um banquete na mesa, e eu sentada entre meu pai e minha mãe.

Tenho saudade de ficar sentada na rede com o meu pai, enquanto ele dava o melhor dele tentando desvendar os livros de literatura do colegial comigo.

Tenho saudade de me sentir A musicista quando minha mãe me pedia ajuda para desmontar o som depois da missa. E de comer pipoca quentinha da barraquinha na porta da igreja.

Tenho saudade de quando tirei meu primeiro zero em física no colegial, e achei que seria o fim do mundo, sem ter noção de como as coisas poderiam ficar mais difíceis.

Tenho saudade de quando chegava a época do meu aniversário e meus pais se empolgavam comigo para planejar as coisas, sem eu precisar fazer tudo sozinha.

Tenho saudade de quando eu ainda tinha vontade e paciência para tentar ter um relacionamento melhor quando me mudei para Franca.

Tenho saudade de contar os dias para voltar para casa. De chegar e ficar brincando com as minhas cachorras, e depois separar mais um tempo só para ficar com os gatos.

Tenho saudade de ir ao centro, colocar crédito no passe, sempre passar na papelaria, farmácia ou na loja da chinesa (mesmo que eu não precisasse de nada). Parar no Senhor Café, tomar cappuccino gelado, com pão de queijo e água com gás da Prata de garrafa de vidro. E depois ficar por mais de hora sentada na praça da fonte observando as pessoas.

Tenho saudade de desfocar durantes as reuniões na UNESP, porque prestar atenção na Sapateria era mais divertido do que prestar atenção nas pautas.

Tenho saudade de ficar o dia todo na UNIFRAN, para comprar cachorro-quente vegetariano e comer escondido no escritório, com ar-condicionado, enquanto assistia série.

Tenho saudade de estar animada com a faculdade e ter uma das maiores médias da turma.

Tenho saudade de como eu me empolgava para dar aula. E de como eu fiquei feliz quando dei a minha primeira aula e percebi que estava realizando meu sonho.

Tenho saudade de me empolgar com meus sonhos, e acreditar que eles são realmente possíveis.

Tenho saudade de acreditar que as coisas podem melhorar, e de ser uma pessoa engajada naquilo que acredito.

Tenho saudade de não estar me sentindo tão vulnerável que tenho medo de falar o que estou pensando, porque quero evitar mais danos.

Tenho saudade de ficar ouvindo Jorge e Mateus no serviço, enquanto tentava não surtar tendo que resolver algumas dezenas de coisas ao mesmo tempo, mas ainda assim dando risada com a menina que trabalhava comigo.

Tenho saudade de como eu me sentia nos primeiros meses que adotei a Cléo e o Nilo.

Tenho saudade de ler um livro por semana. Às vezes um por dia.

Tenho saudade de não estar constantemente estressada, por motivos diversos.

Tenho saudade de cantar. Tenho muita saudade de cantar sem precisar sussurrar.

Tenho saudade de tomar café da manhã, acompanhado de um copo de 500ml de café, e depois ficar arrependida.

Tenho saudade de ficar ansiosa para primeiros encontros.

Tenho saudade de sentir que estava começando a gostar de alguém, e que estavam gostando de mim de volta.

Tenho saudade de pessoas que nem fazem parte da minha vida mais. Sinceramente, não é saudade delas, mas de alguns momentos que vivi com elas. Há exceções.

Tenho saudade de jogar jogos de tabuleiro na cama sem entender nada do que estava acontecendo, mas ficar empolgada mesmo assim, só de ver o outro feliz em jogar comigo.

Tenho saudade de dar 16h30 e ficar ansiosa, porque sabia que receberia mensagem e poderia começar a compartilhar sobre o dia.

Tenho saudade de qualquer rolê é rolê, o importante é se ver.

Tenho saudade de trocar figurinhas no WhatsApp.

Tenho saudade de ansiar que minha aula terminasse logo para poder assistir série junto.

Tenho saudade das pessoas terem tempo para mim, e de eu ter tempo para elas.

Tenho saudade de ter tempo para mim.

Tenho saudade de quem eu já fui. Talvez a minha versão do primeiro semestre de 2019, ou a de alguns meses de 2021. - Provavelmente de uma que não conheço ainda.

Tenho saudade de ter alguém para compartilhar meu dia.

Tenho saudade de não me sentir tão sozinha.

E enquanto escrevo a meia noite, ou reviso ao meio-dia, eu choro. Não sei se de saudade, ou de tristeza por saber que, grande parte disso, são saudades que não posso matar.

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