Tenho sentido muita saudade.
No
começo pensei que seria de algo específico, mas enquanto reflito para escrever
este texto, acho que minha saudade é de um acúmulo de coisas que foram perdidas
ao longo dos anos.
E
acredito que esse é um daqueles textos que seriam intermináveis se assim eu o
quisesse, porque quanto mais eu penso, mais lembranças me vêm de coisas que, ao
mesmo tempo que penso quase diariamente, evito pensar (provavelmente tentando
não me deixar machucar).
Tenho saudade
de algumas coisas tão pequenas, e que podem ser tão insignificantes, que não
teria como formular para deixar aqui registrado. Mas tenho uma caixa abarrotada
de lembranças materiais que vai de uma etiqueta de roupa, até a pétala da rosa
que um menino (que eu saí uma vez e nunca mais conversei) me deu.
Tenho saudade
de não entender como dinheiro é importante, e de não ficar me preocupando com
as minhas finanças.
Tenho saudade
de quando eu e meus amigos tínhamos quase o dia todo livre, e podíamos passar a
tarde toda na casa um dos outros fazendo nada.
Tenho saudade
de ficar na varanda de casa correndo e brincando com as minhas cachorras, Duda
e Mel, e os outros 15 gatos que moravam comigo, incluindo a Miyuki e o Balu.
Tenho saudade
de chegar em casa e ter comida pronta. E depois me perguntarem o que eu queria
jantar.
Tenho saudade
dos almoços de domingo na casa da vó. Sempre com alguma fofoca do que meus
primos haviam feito no sábado a noite, um banquete na mesa, e eu sentada entre
meu pai e minha mãe.
Tenho saudade de ficar sentada na rede com o meu pai, enquanto ele dava o melhor dele tentando desvendar os livros de literatura do colegial comigo.
Tenho saudade de me sentir A musicista quando minha mãe me pedia ajuda para desmontar o som depois da missa. E de comer pipoca quentinha da barraquinha na porta da igreja.
Tenho saudade
de quando tirei meu primeiro zero em física no colegial, e achei que seria o fim
do mundo, sem ter noção de como as coisas poderiam ficar mais difíceis.
Tenho saudade
de quando chegava a época do meu aniversário e meus pais se empolgavam comigo
para planejar as coisas, sem eu precisar fazer tudo sozinha.
Tenho saudade
de quando eu ainda tinha vontade e paciência para tentar ter um relacionamento melhor
quando me mudei para Franca.
Tenho saudade
de contar os dias para voltar para casa. De chegar e ficar brincando com as
minhas cachorras, e depois separar mais um tempo só para ficar com os gatos.
Tenho saudade
de ir ao centro, colocar crédito no passe, sempre passar na papelaria, farmácia
ou na loja da chinesa (mesmo que eu não precisasse de nada). Parar no Senhor Café,
tomar cappuccino gelado, com pão de queijo e água com gás da Prata de garrafa
de vidro. E depois ficar por mais de hora sentada na praça da fonte observando
as pessoas.
Tenho saudade
de desfocar durantes as reuniões na UNESP, porque prestar atenção na Sapateria
era mais divertido do que prestar atenção nas pautas.
Tenho
saudade de ficar o dia todo na UNIFRAN, para comprar cachorro-quente vegetariano
e comer escondido no escritório, com ar-condicionado, enquanto assistia série.
Tenho
saudade de estar animada com a faculdade e ter uma das maiores médias da turma.
Tenho saudade
de como eu me empolgava para dar aula. E de como eu fiquei feliz quando dei a
minha primeira aula e percebi que estava realizando meu sonho.
Tenho saudade
de me empolgar com meus sonhos, e acreditar que eles são realmente possíveis.
Tenho saudade
de acreditar que as coisas podem melhorar, e de ser uma pessoa engajada naquilo
que acredito.
Tenho saudade
de não estar me sentindo tão vulnerável que tenho medo de falar o que estou
pensando, porque quero evitar mais danos.
Tenho saudade
de ficar ouvindo Jorge e Mateus no serviço, enquanto tentava não surtar tendo
que resolver algumas dezenas de coisas ao mesmo tempo, mas ainda assim dando
risada com a menina que trabalhava comigo.
Tenho saudade
de como eu me sentia nos primeiros meses que adotei a Cléo e o Nilo.
Tenho saudade
de ler um livro por semana. Às vezes um por dia.
Tenho saudade
de não estar constantemente estressada, por motivos diversos.
Tenho saudade
de cantar. Tenho muita saudade de cantar sem precisar sussurrar.
Tenho saudade
de tomar café da manhã, acompanhado de um copo de 500ml de café, e depois ficar
arrependida.
Tenho saudade
de ficar ansiosa para primeiros encontros.
Tenho saudade
de pessoas que nem fazem parte da minha vida mais. Sinceramente, não é saudade
delas, mas de alguns momentos que vivi com elas. Há exceções.
Tenho saudade
de jogar jogos de tabuleiro na cama sem entender nada do que estava acontecendo,
mas ficar empolgada mesmo assim, só de ver o outro feliz em jogar comigo.
Tenho saudade
de dar 16h30 e ficar ansiosa, porque sabia que receberia mensagem e poderia
começar a compartilhar sobre o dia.
Tenho saudade
de qualquer rolê é rolê, o importante é se ver.
Tenho saudade
de trocar figurinhas no WhatsApp.
Tenho saudade
de ansiar que minha aula terminasse logo para poder assistir série junto.
Tenho
saudade das pessoas terem tempo para mim, e de eu ter tempo para elas.
Tenho saudade
de ter tempo para mim.
Tenho saudade de quem eu já fui. Talvez a minha versão do primeiro semestre de 2019, ou a de alguns meses de 2021. - Provavelmente de uma que não conheço ainda.
Tenho saudade
de ter alguém para compartilhar meu dia.
Tenho saudade
de não me sentir tão sozinha.
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