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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Quando comecei a me diminuir

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Talvez tenha sido em 2011. Primeiro colegial, e descobri que poderia falar palavrão. Falava pra c@r#lh%, só com meus amigos. Um dia um menino da minha sala, que nem me conhecia, virou para mim e perguntou “você não acha feio falar desse jeito não?”. Nunca vi ele questionar o modo de falar de mais ninguém.

Pensando bem, talvez tenha começado no Dia das Mães de algum ano do ensino fundamental. Cantei no teatro municipal. Minha mãe assistiu. Quando estávamos indo embora ela só falava tudo o que eu deveria ter feito de diferente. E eu só queria homenagear minha mãe.

Em 2019 saia com meu “veterano”. A noite eu me apresentaria na frente da faculdade toda. Mais cedo, comecei a ter crise de ansiedade. Mandei áudio para ele chorando, falando que estava muito nervosa. Ele me chamou de “amor”, e disse que ficaria tudo bem. Quando ele chegou na faculdade e me viu, passou por mim e nem olhou na minha cara. Quis esperar por ele na saída para conversar. Nada. Mandei mensagem: “Por que você não me deu oi nem de longe?” – “Ah, fiquei com medo de te agarrar na frente de todo mundo” – “... Hum, mas você sabia como eu estava nervosa, poderia ter sido só um aceno...” – “Eu me conheço” – “Entendi, mas, mesmo assim, você não acha que...” – “Acho que você tá criando muito caso”.

No colegial falavam que minha voz era ruim demais para cantar. Meu inglês era caipira demais para falar “certo”.

No fundamental eu não tinha o porte físico “adequado” para ser escolhida na educação física. Um fatídico dia tinha chovido na quadra, e eu escorreguei 3 vezes. Foi a última vez que participei. No ensino infantil, enquanto voltava de uma das aulas de educação física, eu caí de joelho no meio da rua. As meninas pararam em um círculo em volta de mim, começaram a rir e perguntaram se eu estava rezando.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez caras que eu já saí sempre davam a entender que eu era doida e errada, porque cobrava demais. Eu queria o mínimo: não ser um pedaço de carne para ser consumida somente quando estavam com vontade.

Natal em família, e começa uma discussão que todos falam da minha mãe sem ela nem estar presente. Meu tio fala, o outro tio fala, a esposa fala, a namorada fala, os tios gritam. A matriarca fica em silêncio, aceita. Eu peço para pararem. Gritam comigo, porque eu que estou errada.

Ensino fundamental, estou em um barzinho com meus pais comendo porção de tilápia. Conto sobre a menina da minha sala que tem um namoradinho agora. Minha mãe começa a gritar comigo achando que estou namorando. Tento explicar, sou calada. Precisamos ir embora. Nunca namorei. Nunca mais quis contar sobre namoradinhos para os meus pais.

Ensino médio, terceiro colegial, véspera de vestibular. Passei 2013 estudando de manhã, tarde e noite, sem parar. Nas duas semanas anteriores ao último vestibular que prestaria, eu estava apavorada. Medo de não passar em nenhuma faculdade, medo de ser um fracasso. Medo de passar e ter que sair de casa. A única coisa que conseguia fazer era pesquisar e baixar músicas. Um dia chamei meus pais, queria mostrar minha nova playlist. Meu pai começa a brigar comigo, porque eu não estava estudando o suficiente. Descobri que tinha passado no vestibular sem estar falando com ele ainda.  

Minha segunda consulta com o psiquiatra em 2020, minha avó aceitou o convite de ir comigo. Ela sentada ao meu lado, sentada na frente do meu médico. Mais de uma hora eu ouvindo um especialista tentando falar com alguém que não queria ouvir, nem entender. “Depressão não é doença”. Tive que tomar duas doses de Rivotril nesse dia. Seis meses depois, saindo para mais uma consulta, “nossa, ele não me chamou mais por quê? Não gostou de mim?”. Nunca foi sobre mim.

Meu psiquiatra me prescreveu Rivotril. “Meu Deus...Você vai ter que tomar Rivotril?” - “Só quando eu tiver crise” - “Tenta tomar pouco, tá?”. Não foi por mal. Mas mesmo quando peço ajuda, não pode ser tanta ajuda assim.

Oito anos ouvindo que tudo que eu faço é errado, diariamente – ou quase.

Minha aparência sempre foi algo muito bom para falar sobre. Alta demais, cabelo fino demais. É bonita de rosto; se fosse só o rosto até que daria. Unha roída, marcas de espinha. Gorda, curvas. No fundamental falavam que eu só poderia estar indo de fralda para a escola, por conta da minha bunda. Não pode usar vestido com listras horizontais. Não pode usar roupa colada. Não pode usar roupa curta. Nada favorece, nenhuma roupa favorece.

Em 2018 saía com um cara que era fisioterapeuta. Um dia ele parou, e começou a comentar que minha perna era torta, assim como minha coluna, quatro e meia da manhã enquanto eu bebia água. Não sabia o que ele queria que eu respondesse.

Em 2020 tive que escrever um texto para um trabalho da faculdade. Mandei para meu colega de grupo que ficou como responsável final. “Mudei só algumas coisinhas gramaticais, mas ficou ótimo viu, Carol? Obrigado!”. Quando abri o trabalho, minha parte estava toda modificada, mal restou minha opinião sobre o tema.

Em 2018 estava indo a pé para uma reunião. Cheguei em um quarteirão que geralmente não passa ninguém, independentemente da hora do dia. Passou um homem de moto, assobiou para mim, desacelerou e ficou me olhando. Mostrei o dedo do meio para ele. Ele andou um pouco mais para a frente e parou a moto. Eu parei de andar, não vinha ninguém.  Ele ficou me olhando. Começou a dar ré. Comecei a correr para o outro lado. Dei a volta e cheguei em uma praça. Sentei. Fiquei paranoica achando que ele estava por perto, mas não via nada. Continuei até onde precisava chegar, mas às vezes começava a correr, porque sentia como se ele estivesse me vigiando. Quando cheguei, meus amigos precisaram me ajudar, porque minha pressão estava caindo e eu quase desmaiei. Chorei.

As inúmeras vezes que me silenciaram, porque eu não deveria falar sobre determinado assunto. Não tenho idade para opinar sobre o que acontece na minha família. Não entendo de política, não posso falar nada. Sou ignorante sobre religião, só tenho que aceitar. Sou muito nova para saber sobre isso. Por que estou falando, afinal?

Em 2017 fui pegar o ônibus para ir à casa de um cara. Já estava de noite, e o ponto ficava na frente de um bar. Mandava mensagens para ele falando que estava desconfortável e com medo, porque os homens ficavam me olhando e estavam bêbados. Ele deu risada.

Uma das minhas amigas do fundamental começou a sair com um menino. Combinamos de ir à pracinha para ele conhecer nosso grupo de amigos. Antes dele chegar, ela me disse “Carol, por favor, tenta não ser ‘demais’, ok? Para não assustar ele”. Concordei. Nessa mesma noite eu subi em cima do banco da praça e comecei a sambar. Não falei mais com ele e – posteriormente – nem com ela.

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Eu não me esqueço de nada.

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