Quando ganhei meu violão há uns 15 anos, na primeira noite dormi abraçada com ele de quão empolgada fiquei. Na época eu deveria ter uns 9-10 anos, era criança e acabei não dando sorte com nenhum professor. Por fim, ele ficou encostada por um longo tempo. Mas música sempre foi uma parte muito especial e importante na minha vida, cresci vendo minha mãe cantar na igreja. É engraçado, porque, às vezes, enquanto ela estava cantando na missa, eu me pegava imitando seus gestos – e acho que ela nem percebia.
Cresci
com música e, quanto mais velha ficava, mais isso se tornava parte do meu dia a
dia. Fui colocada para cantar nos eventos da igreja, vídeos de família; e fui
pegando o gosto. Eu amava cantar, mesmo sem saber direito o que estava fazendo.
Quando estreou Camp Rock na Disney Channel em 2008 foi um dos momentos
mais mágicos da minha vida. Naquele dia eu conheci Jonas Brothers; conheci também uma
das minhas cantoras favoritas da vida: Demi Lovato; tive contato com música
internacional; criei sonhos de fazer parte de um acampamento musical; quis começar
uma banda com meus amigos (que, nessa época, todos tinham alguma ligação com
música também). Nenhum levou a sério.
Só
que, por mais tolo que pareça, Camp Rock foi o que me fez ter mais e
mais vontade de ir atrás de música. Entrava no site do Vagalume todos os dias
para ver os lançamentos. Era uma loucura conseguir baixar alguma coisa pelo Ares
ou 4share. Lembro de ir para a casa de um amigo meu, e nós passarmos
boas horas cantando loucamente; ele e o irmão arranhando o violão e tocando
teclado. Várias gravações, várias desafinações, mas quando começávamos, só
parávamos quando achávamos que tínhamos conseguido uma que era “boa”. Na minha
época de bate e volta fazendo colegial em Uberaba, semanalmente tinha alguma
cantoria no ônibus, por vezes, até na rua. Bons tempos.
Foi
com a música que fiz parte do único evento do Brejo em que eu me sentia
confortável: participei de todas as edições do sarau, com várias pessoas
tocando comigo, em vários lugares diferentes. Desde a primeira edição em 2015 com
vinte pessoas, até o último em 2018 com o bar lotado. Até que ano passado fui convidada para cantar
com outro amigo na abertura de um evento do meu curso de Letras. E o outro
convidado especial foi meu violão que precisou ser utilizado. Durante vários
dias andava com ele para cima e para baixo para os ensaios. E, depois da
apresentação, ele acabou ficando em Franca comigo. Ele olhava para mim, eu
olhava para ele, até que pensei... Por que não tentar começar a tocar? E
comecei. Fui direto para as músicas. Sabia 3 notas que aprendi quando era
criança, mas não queria ficar presa na teoria, queria aprender a tocar as
canções. E, durante muitos meses - e alguns vários momentos de frustrações –
fui aprendendo aos poucos. De repente, estava conseguindo tocar e cantar ao mesmo
tempo; continuei.
Até
que neste ano surgiu a oportunidade do sarau online da faculdade e, dessa vez,
se eu quisesse me apresentar, teria que ser sozinha, voz e instrumento, não
teria como ninguém me ajudar, porque... bem, estamos em uma pandemia. E decidi
me arriscar. Diariamente ensaiava por umas duas horas as duas músicas que
apresentei: All of me, do John Legend, e Skyscraper, da Demi
Lovato. No dia do sarau estava em choque. Era a primeira vez na minha vida que
iria tocar violão na frente de alguém, e o peso de dessa vez não ter ninguém ao
meu lado para me dar suporte era muito grande. Meus pais estavam longe, meus amigos
estavam longe. Errei algumas notas enquanto tocava, desafinei algumas vezes
enquanto cantava. Depois que terminei, sai da chamada e chorei por algumas
horas seguidas.
No
outro dia toquei violão com raiva pensando no que eu poderia ter feito de
diferente, porque, na minha cabeça, tinha ficado horrível. Naquela época, já
estava entrando em estado depressivo e, juntando com o que tinha acontecido no
sarau, não consegui tocar mais por alguns meses. Conforme minha depressão se
agravava, acabei me afastando da música também. Na verdade, a partir de junho,
aos poucos deixei de fazer várias coisas.
No
final de agosto comecei a tomar medicação e, em outubro, tive vontade de tocar
de novo. No começo parecia que eu não sabia mais nada do que vinha aprendendo
desde o ano passado, e senti muita raiva de mim mesma por ter desistido, mas - ao
mesmo tempo - sabia que não era algo que tive controle. Voltei tocando as
músicas que aprendi no comecinho, até que senti a imensa necessidade de
aprender Anyone - a única música que eu nunca parei de ouvir. Ela me
marcou desde a primeira vez que a escutei na apresentação ao vivo do Grammys
de 2019. Eu chorava muito enquanto assistia Demi cantando, porque ela
descrevia o que eu vinha sentindo há muito tempo, e que culminou em vários
eventos da minha vida nesses últimos meses.
Das
dezenas de vezes que a ouvi ao longo de 2020, foram dezenas de vezes que
chorei, e era necessário para mim cantá-la e conseguir tocá-la da minha forma.
Quando escolhi cantar Skyscraper no sarau deste ano também foi por esse
motivo. Essa é outra música que sempre me marcou muito desde 2010. A diferença
é que eu ainda não estava nem um pouco pronta para viver seu significado.
Passei
esses últimos meses quase que diariamente ensaiando Anyone, testando e
aprendendo versões diferentes, notas diferentes, tons diferentes. Durante
vários anos senti essa música direta ou indiretamente, mas em 2020 vivi
momentos com pessoas, das mais próximas às – hoje – mais distantes, que me fizeram sentir essa letra de formas diversas e mais intensas. Foram vários olhares,
palavras (o excesso e falta delas), e momentos que fizeram eu entrar em um
estado que, dessa vez, achei que não iria conseguir sair, mas estou
conseguindo, todos os dias.
Duas semanas antes que eu decidir gravar, a corda do meu violão arrebentou, e achei que seria o fim da minha meta com essa música. Nunca comprei corda sozinha, muito menos troquei corda sozinha. Mas consegui, e me peguei abraçando meu violão de novo como se fosse 15 anos atrás. Pequenas coisas para alguns, grandes momentos para mim.