Um acervo que começou no dia 7 de dezembro de 2010 e que acompanha vários momentos da minha vida, deixando registrado a transcrição de memórias, nós na garganta, revoltas, e um mundo de fantasias.
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sexta-feira, 7 de março de 2014
Presságio
“Vamos,
já para dentro, rápido!” gritei para o meu cachorro. Meu desespero para entrar
e me aconchegar em casa era mais que evidente, ressaltado pelo meu tom de voz
mais grave e assustado como nunca esteve antes, por isso, quando chamei, Al Capone
entrou em uma corrida só e logo estirou-se no tapete da sala. O céu estava
nublado, sem nuvens, sem estrelas, totalmente escuro e achar as chaves de casa
foi um sacrifício com a luz do poste falhando e, quando consegui achar a chave
certa, a luz deu um estouro e apagou-se. Olhei ao redor, um papelão passou
voando na calçada encoberta pela escuridão, o que me assustou. Nunca fui de me
assustar fácil, mas estava com uma sensação ruim. Liguei a lanterna do celular,
entrei em casa, acendi a luz, mandei meu cachorro entrar e tranquei a porta.
Pensei que iria chover. Minha vizinhança sempre foi barulhenta, tanto é que,
por vezes, briguei com eles por conta disso e, por vezes também, já me
ameaçaram, pois sempre foram ignorantes o suficiente para não aceitarem um
pedido simples, como: abaixem um pouco o som, essas coisas. Entretanto, hoje,
um sábado à noite, estava tudo quieto, estranhei e fui até a janela ver se
havia alguma luz acessa na casa ao lado, abri a cortina da sala e, de repente,
vi um vulto passando. Dei um grito e cai para trás, meu cachorro veio correndo
em minha direção. Ele era um rottweiler, cuidava da casa e de mim, e todos
sabiam o quão bravo ele era. Comecei a chorar e resolvi que ligaria
imediatamente para a polícia, tremia tanto que, ao pegar o telefone para
discar, derrubei-o no chão umas três vezes, até que, finalmente, consegui, ou
achei que tinha conseguido. A ligação não completava, dizia que o número da
polícia havia mudado, como seria possível o número da polícia mudar? Pensei que
era problema com o telefone e tentei com o celular. Acontecia a mesma coisa.
Entrei em desespero, tinha se passado uns dez minutos desde que vi o vulto na
janela e já estava tão neurótica que ouvi Al Capone comendo e corri para me
esconder no banheiro achando que tinham conseguido invadir a minha casa. Fiquei
trancada no andar de cima ligando, insistentemente, para a policia, alternava
entre o celular e o telefone, mas a mensagem era sempre a mesma. Foi quando o
que eu menos esperava aconteceu, minha casa toda se afogou na escuridão. Fiquei
paralisada, olhava por todo o banheiro e não via um ponto de luz sequer.
Novamente acendi a lanterna do celular. Havia algumas coisas do meu ex-marido
no armário e achei um refil de gilette, segurei firme e pensei que somente com
aquilo estaria segura, quanta inocência. Estava no mesmo lugar pensando no que
faria, e quis ligar para Jorge, meu ex. Não havia mais ninguém que eu pudesse
chamar, não tinha parentes e a maioria dos meus amigos estava indo viajar, já
que hoje era o primeiro dia de um feriado prolongado. Todavia, depois de um
tempo, cheguei à conclusão de que ligar para Jorge seria pior. Não tivemos um
divorcio fácil, brigamos muito no Tribunal e ele já me disse várias vezes que,
um dia, faria de tudo para tomar o que é meu e eu estava em uma situação
totalmente vulnerável, não duvido nada de que ele pudesse tirar proveito disso.
Então, resolvi que tinha que sair do banheiro, afinal, meu cachorro estava lá
fora, sozinho, e não podia ficar o resto da madrugada escondida. Abri a porta e
já estava quase descendo as escadas quando ouvi um ganido, forte e agudo.
Deixei tudo cair no chão, arregalei os olhos e, instintivamente, saí correndo.
Não enxergava nada, cheguei ao final da escada e comecei a andar de um lado
para outro sem saber ao certo onde estava. Comecei a ficar descontrolada. Parei
de andar e gritei sucessivamente “Al Capone! Al Capone!” esperando uma
resposta, esperando qualquer coisa, quando, num piscar de olhos, a luz
acendeu-se. Olhei assustada tudo ao redor e, quando me dei conta, olhei para o
chão. Meu cachorro estava aos meus pés, morto, ensanguentado. Havia sido
esfaqueado: uma só facada, na barriga. Inicialmente, pensei em como conseguiram
fazer aquilo, parecia que ele nem sequer havia reagido. Fiquei em choque. Cai
de joelhos no chão, peguei-o no colo e chorei tentando entender o que estava
acontecendo naquela casa. Sabia que poderia ter alguém logo atrás de mim,
pronto para me dar uma facada certeira, mas nem me importei. Depois de muito
tempo chorando com meu cachorro em meu colo, levantei-me. Olhei para a minha
roupa, todo suja de sangue. Peguei o casaco que estava vestindo e cobri Al
Capone. Minha casa ficou toda escura novamente. Agora é minha vez, pensei. Já
estava fora de mim, comecei a gritar. Gritava dizendo que quem fosse que
estivesse ali, que me matasse de uma vez. Depois de muito tempo, estava cansada
de andar e gritar e resolvi que, já que alguém estava ali para me matar, eu
queria morrer em paz. Arrastei meu cão morto para perto da escada, sentei no
último degrau e fiquei abraçada com ele. Quando me dei conta, peguei no sono.
Abri os olhos, lentamente, e vi que já era de manhã, ergui a cabeça e estava me
preparando para ficar de pé quando ouvi ao fundo “bom dia Helena” e senti algo
forte e pontudo penetrando em minha cabeça.
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