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quinta-feira, 13 de março de 2014

Presságio, por Al Capone

Fome e cansaço me resumiam. Minha dona não entendia que eu estava velho demais para ficar correndo. Ela ainda achava que eu era o mesmo cão de uns cinco anos atrás, mas não era. Chegamos à esquina de nossa rua, avistei nossa casa e quis sair correndo para chegar logo - na verdade - sempre faço isso, todavia, meu instinto dizia que hoje não deveria deixar Helena sozinha, nem por um minuto. Chegamos e, não sei por que, mas hoje ela demorou mais que o normal para abrir a porta e senti seu susto quando a rua toda se apagou. Finalmente entramos, enquanto esperava minha dona se ajeitar, estirei-me no tapete da sala e, depois, fui dar uma volta na casa. Já estava indo comer quando ouvi um grito, logo percebi que era a voz de Helena. Saí correndo, o mais rápido que conseguia, ela estava caída no chão. Dei-lhe uma lambida, ela me olhou assustada - muito assustada - e me abraçou. Por mais que eu estivesse velho, Helena sabia que daria minha vida para salvá-la. Nós tínhamos uma relação muito forte e eu me sentia seguro com ela e via que ela se sentia segura comigo. Esperei ela se levantar, fui em direção ao sofá, para ver se ela entendia que eu queria que ela se sentasse. Geralmente, é minha dona quem dá “batidinhas” como que dizendo: venha, sente-se ao meu lado Al Capone! E eu sempre vou. Só que hoje, tive que fazer ao contrário, e, aparentemente, ela entendeu, pois logo se sentou e começou a usar um aparelho, que não sei bem ao certo o que é. Achei que ela já estava melhor e fui, finalmente, saciar minha fome, dessa vez iria rápido, porque tinha que voltar e ficar com Helena. Comecei a comer e ouvi-a correndo. Fui até a sala e ela não estava mais lá.  Não entendi porque ela saiu e me deixou sozinho, entretanto, achei que logo voltaria. Pensei em subir para o quarto dela, mas estava muito cansado e resolvi deitar-me no sofá da sala mesmo. Nunca conseguia dormir direito, afinal, eu era um cão de guarda, e, à noite, se um galho de árvore balançasse, eu já estava acordado checando tudo. Por isso, quando ouvi um barulho (parecia que vinha da cozinha) levantei-me e fui fazer meu serviço: checar. Lembrei que Helena ainda não havia descido e pensei que ela havia ido buscar alguma coisa para podermos ir dormir, não entendi bem. Fui devagar, sem fazer barulho, para não assustá-la. No entanto, quanto mais perto chegava, menos era o cheiro dela que eu sentia, ou então só estava ruim de faro mesmo. Percebi que estava na cozinha e senti alguém lá. Minha dona se assustou comigo, eu senti, já ia dar uma lambida, pedindo desculpa, quando vi algo vindo em minha direção e, de repente, senti alguma coisa penetrando minha pele, era pontudo, afiado, rasgou tudo dentro de mim. Soltei um ganido forte e agudo, caí no chão. Tudo começou a embaralhar. Não entendia porque ela havia feito isso comigo. Será que ficou muito brava por eu tê-la assustado? Por que Helena me feriu de tal maneira? Não entendia, não entendia. Não pensei em revidar, ela era minha dona, minha companheira, eu não tinha capacidade de avançar nela, e nem forças. Entretanto, fui forte o bastante e ouvi-la gritar meu nome. Sim, ela gritou! Não era ela! Ela gritava de longe! Ouvi-la gritar várias vezes: “Al Capone, Al Capone!”. Tive vontade de fazer como fiz algum tempo atrás, quando ela gritou e saí correndo para dizer “Estou aqui”, só que não conseguia, não conseguia ao menos soltar um latido, mais fraco que fosse. Quem me enfiou aquele objeto, ainda me observava. Aquele cheiro... Aquele cheiro era conhecido. Ele me pegou pelas patas e me arrastou no chão. Eu tentei, tentei fazer força... Não conseguia. Sabia que Helena estava em perigo. Quis ser mais forte e me senti um completo inútil com aquele furo na barriga que não parava de jorrar sangue.  Minha dona estava em perigo e nada poderia fazer. A tal pessoa saiu de perto de mim, mas ainda sentia alguém por ali. Vi uma luz... Fui ficando mais fraco... Minha respiração já estava parando...  Senti um calafrio alastrando-se em meu corpo... Meu coração acelerado... Entretanto, mesmo achando que já havia partido, consegui sentir o último abraço que Helena deu em mim.

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