Um acervo que começou no dia 7 de dezembro de 2010 e que acompanha vários momentos da minha vida, deixando registrado a transcrição de memórias, nós na garganta, revoltas, e um mundo de fantasias.
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quinta-feira, 13 de março de 2014
Presságio, por Al Capone
Fome
e cansaço me resumiam. Minha dona não entendia que eu estava velho demais para ficar
correndo. Ela ainda achava que eu era o mesmo cão de uns cinco anos atrás, mas
não era. Chegamos à esquina de nossa rua, avistei nossa casa e quis sair
correndo para chegar logo - na verdade - sempre faço isso, todavia, meu
instinto dizia que hoje não deveria deixar Helena sozinha, nem por um minuto.
Chegamos e, não sei por que, mas hoje ela demorou mais que o normal para abrir
a porta e senti seu susto quando a rua toda se apagou. Finalmente entramos, enquanto
esperava minha dona se ajeitar, estirei-me no tapete da sala e, depois, fui dar
uma volta na casa. Já estava indo comer quando ouvi um grito, logo percebi que
era a voz de Helena. Saí correndo, o mais rápido que conseguia, ela estava
caída no chão. Dei-lhe uma lambida, ela me olhou assustada - muito assustada -
e me abraçou. Por mais que eu estivesse velho, Helena sabia que daria minha
vida para salvá-la. Nós tínhamos uma relação muito forte e eu me sentia seguro
com ela e via que ela se sentia segura comigo. Esperei ela se levantar, fui em
direção ao sofá, para ver se ela entendia que eu queria que ela se sentasse.
Geralmente, é minha dona quem dá “batidinhas” como que dizendo: venha, sente-se
ao meu lado Al Capone! E eu sempre vou. Só que hoje, tive que fazer ao
contrário, e, aparentemente, ela entendeu, pois logo se sentou e começou a usar
um aparelho, que não sei bem ao certo o que é. Achei que ela já estava melhor e
fui, finalmente, saciar minha fome, dessa vez iria rápido, porque tinha que
voltar e ficar com Helena. Comecei a comer e ouvi-a correndo. Fui até a sala e
ela não estava mais lá. Não entendi
porque ela saiu e me deixou sozinho, entretanto, achei que logo voltaria.
Pensei em subir para o quarto dela, mas estava muito cansado e resolvi
deitar-me no sofá da sala mesmo. Nunca conseguia dormir direito, afinal, eu era
um cão de guarda, e, à noite, se um galho de árvore balançasse, eu já estava
acordado checando tudo. Por isso, quando ouvi um barulho (parecia que vinha da
cozinha) levantei-me e fui fazer meu serviço: checar. Lembrei que Helena ainda
não havia descido e pensei que ela havia ido buscar alguma coisa para podermos
ir dormir, não entendi bem. Fui devagar, sem fazer barulho, para não assustá-la.
No entanto, quanto mais perto chegava, menos era o cheiro dela que eu sentia,
ou então só estava ruim de faro mesmo. Percebi que estava na cozinha e senti
alguém lá. Minha dona se assustou comigo, eu senti, já ia dar uma lambida,
pedindo desculpa, quando vi algo vindo em minha direção e, de repente, senti
alguma coisa penetrando minha pele, era pontudo, afiado, rasgou tudo dentro de
mim. Soltei um ganido forte e agudo, caí no chão. Tudo começou a embaralhar.
Não entendia porque ela havia feito isso comigo. Será que ficou muito brava por
eu tê-la assustado? Por que Helena me feriu de tal maneira? Não entendia, não
entendia. Não pensei em revidar, ela era minha dona, minha companheira, eu não
tinha capacidade de avançar nela, e nem forças. Entretanto, fui forte o
bastante e ouvi-la gritar meu nome. Sim, ela gritou! Não era ela! Ela gritava
de longe! Ouvi-la gritar várias vezes: “Al Capone, Al Capone!”. Tive vontade de
fazer como fiz algum tempo atrás, quando ela gritou e saí correndo para dizer
“Estou aqui”, só que não conseguia, não conseguia ao menos soltar um latido,
mais fraco que fosse. Quem me enfiou aquele objeto, ainda me observava. Aquele
cheiro... Aquele cheiro era conhecido. Ele me pegou pelas patas e me arrastou
no chão. Eu tentei, tentei fazer força... Não conseguia. Sabia que Helena
estava em perigo. Quis ser mais forte e me senti um completo inútil com aquele
furo na barriga que não parava de jorrar sangue. Minha dona estava em perigo e nada poderia
fazer. A tal pessoa saiu de perto de mim, mas ainda sentia alguém por ali. Vi
uma luz... Fui ficando mais fraco... Minha respiração já estava parando... Senti um calafrio alastrando-se em meu
corpo... Meu coração acelerado... Entretanto, mesmo achando que já havia
partido, consegui sentir o último abraço que Helena deu em mim.
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