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sábado, 7 de junho de 2014

Preconceito

Confesso que, ao receber a proposta para escrever um texto sobre preconceito, fiquei desnorteado. Trata-se de um tema que é tão integrado a minha vida, seja como pessoa, em um todo, ou seja, como um estudante, apenas na esfera acadêmica, que fica difícil dissertar plenamente sobre. E, também, porque o preconceito é apenas um ponto de uma questão que se desdobra em várias outras facetas. Proponho que façamos, juntos, uma análise geral e básica do problema, para que possamos compreender de onde ele vem, em que se apoia e a que fim serve. Contudo, para tanto é preciso que estabeleçamos um ponto de partida. E este é: O preconceito nasce, justamente, na ignorância e, sustentado nela, desenvolve-se. O preconceito não tem fundamento: é raso. Não tem argumentos que o sustentem. Por isso, aqueles que tentam defendê-lo dizendo "É a minha opinião" erram. Opinião tem base, é sustentada e se molda sobre bons argumentos. Opinião é conceito. Logo, preconceito é, justamente, uma pré-opinião. É importante, também, compreender que este se trata de uma ideia. O preconceito é a noção que subsidia a discriminação. Porém, os dois não se confundem. A ação discriminatória, que, de alguma forma, segrega e aparta, forma-se sobre a égide do pensamento preconceituoso, concretizando-o. Algumas formas de discriminação se sustentam por circunstâncias históricas e, dessa maneira, se infiltram na cultura de um povo. E, por mais que sejam "escondidas", demonstram suas consequências por todos os lados. Exemplo claro disso é o racismo. Sutilizado no Brasil, mas que é legítimo e evidente, não só em instituições específicas, como a polícia militar, que pratica um verdadeiro genocídio do povo preto e pobre, como também em outros âmbitos: mercado de trabalho, educação, e, até mesmo, na configuração da própria cidade, visto que os negros, marginalizados desde quando chegaram ao Brasil, são jogados para as regiões periféricas, enquanto os brancos dominam os bairros nobres. Agora, tendo entendido o que é o preconceito e o que é a discriminação, podemos entender o que ambos fazem: Oprimem, pois jogam à margem, calam e agridem. Levam os oprimidos a empregos precários. Reservam-lhes uma educação péssima, que nada mais serve a não ser para praticar a manutenção de seu estado. Logo, a opressão é, por assim dizer, a consequência da discriminação que é, por sua vez, a materialização da ideia preconceituosa. Entendemos, portanto, que o ponto mais importante, em se tratando de tal questão, é justamente a opressão! E esta será a palavra chave daqui por diante. As formas de opressão não se manifestam, apenas, na violência ostensiva. Na verdade, em sua constante busca pela naturalização, que, por consequência, leva ao seu não questionamento e, por fim, perpetuação; as mesmas também se manifestam nos pressupostos que sustentam as ações mais corriqueiras que possamos imaginar. Para ficar mais claro, cabe aqui um exemplo: Quando um garoto, num jogo de futebol, dirige-se ao outro como "Viado", após o segundo ter cometido um erro, é provável que este não tinha a intenção de ser homofóbico ou de apoiar um sistema que mata um LGBT* a cada 28 horas no Brasil. Contanto, o pressuposto que sustenta a sua ação serve, exatamente, a este interesse. Como? Vamos analisar: A palavra "Viado" vem ligada a orientação sexual homossexual. E vem, no caso, como consequência de um ato negativo, logo como uma forma de repreensão. Como algo que possa ser usado para agredir. O garoto que foi repreendido, por sua vez, fica irritado, justamente por ter sido chamado de "Viado". Então notamos que ele também acolhe a noção homofóbica, por acreditar, mesmo que inconscientemente, que ser homossexual diminui alguém em sua dignidade e, portanto, julga que ser chamado de qualquer coisa que seja relacionada à noção de ser homossexual, é uma ofensa grave. Porém, caso alguém tente explicar como os pressupostos de ódio se escondem nas mais simples ações, a resposta que terá vai ser "Não, é apenas a emoção dos jogos, não há mal nisso". E é justamente aí que mora o perigo. O preconceito, a discriminação, a opressão e, enfim, o ódio, manifestam-se em TODOS os âmbitos da sociedade. E em todos os lugares tem a mesma função. Não há um lugar em que é menos ou mais grave. Encarar que, em determinadas situações, a opressão é tolerável permite que as pessoas sintam-se confortáveis para demonstrar todo o ódio que sentem, mas reprimem nas relações sociais, sem fazer nada para modificá-lo. Todos os ódios são ódios. Todos eles merecem ser combatidos e não entendidos como naturais em algum contexto, pois - em todos os contextos - tratam do mesmo discurso que fundamenta as centenas de mortes: o discurso preconceituoso. Outro fato sobre as falas preconceituosas e discriminatórias é que, aqueles que as reproduzem, tendem a, frequentemente, defendê-las sob a desculpa da Liberdade de expressão. Quando lhe disserem isso, não se preocupe. Trata-se de uma mentira gigantesca. Liberdade de expressão e discurso de ódio não se confundem. A primeira não protege a segunda. Na verdade, esta começa justamente quando aquela acaba. A partir do momento em que alguém faz uso de sua liberdade para diminuir alguém em algum aspecto, tentando atingir-lhe a dignidade, ela perde sua legitimidade e é desconsiderada. Portanto, não. A liberdade de expressão não está a serviço da opressão. Além dos problemas supracitados, existe um que é talvez ainda mais grave: a reprodução do discurso opressor pelos próprios oprimidos. Gays que dizem que afeminados são os culpados pela homofobia. Negros que se posicionam contra políticas raciais. Mulheres que são contra a autonomia de suas irmãs de luta sobre seus próprios corpos, e assim por diante. Trata-se de um meio de legitimar a dominação aos grupos minoritários, fazendo com que eles mesmos se coloquem como oprimidos, não resistindo, e, portanto, facilitando o processo que os marginaliza. Para os que se interessam pelas teorias econômicas, recomendo que reflitam e pesquisem sobre como o sistema capitalista se utiliza dos grupos socialmente marginalizados para compor as classes mais baixas, que vão possibilitar a sua existência, e como ele contribui para que essa desigualdade seja mantida. Apesar de querer, eu não entrarei nesse mérito. Até porque já estaria saindo demais do tema que me foi proposto, mas é interessantíssimo o assunto. Bem, acho que isso é o suficiente para que seja desenvolvida uma visão crítica sobre o preconceito, discriminação e opressão. Espero que tenham gostado e espero que, no futuro, quando eu souber mais do que sei agora, eu possa lhes contar mais um pouco. Enquanto isso, peço que não se calem! Rebatam quando ouvirem um discurso de preconceito sendo reproduzido. A única forma de destruí-los é, justamente, desconstruindo-os.

"Nossos lábios são fundamentais contra os fundamentalismos".

                             Caio Prata

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