Confesso que, ao receber a proposta para escrever um texto sobre
preconceito, fiquei desnorteado. Trata-se de um tema que é tão integrado a
minha vida, seja como pessoa, em um todo, ou seja, como um estudante, apenas na
esfera acadêmica, que fica difícil dissertar plenamente sobre. E, também,
porque o preconceito é apenas um ponto de uma questão que se desdobra em várias
outras facetas. Proponho que façamos, juntos, uma análise geral e básica do
problema, para que possamos compreender de onde ele vem, em que se apoia e a
que fim serve. Contudo, para tanto é preciso que estabeleçamos um ponto de
partida. E este é: O preconceito nasce, justamente, na ignorância e, sustentado
nela, desenvolve-se. O preconceito não tem fundamento: é raso. Não tem
argumentos que o sustentem. Por isso, aqueles que tentam defendê-lo dizendo
"É a minha opinião" erram. Opinião tem base, é sustentada e se molda
sobre bons argumentos. Opinião é conceito. Logo, preconceito é, justamente, uma
pré-opinião. É importante, também, compreender que este se trata de uma ideia.
O preconceito é a noção que subsidia a discriminação. Porém, os dois não se
confundem. A ação discriminatória, que, de alguma forma, segrega e aparta, forma-se
sobre a égide do pensamento preconceituoso, concretizando-o. Algumas formas de
discriminação se sustentam por circunstâncias históricas e, dessa maneira, se infiltram
na cultura de um povo. E, por mais que sejam "escondidas", demonstram
suas consequências por todos os lados. Exemplo claro disso é o racismo.
Sutilizado no Brasil, mas que é legítimo e evidente, não só em instituições
específicas, como a polícia militar, que pratica um verdadeiro genocídio do
povo preto e pobre, como também em outros âmbitos: mercado de trabalho,
educação, e, até mesmo, na configuração da própria cidade, visto que os negros,
marginalizados desde quando chegaram ao Brasil, são jogados para as regiões
periféricas, enquanto os brancos dominam os bairros nobres. Agora, tendo
entendido o que é o preconceito e o que é a discriminação, podemos entender o
que ambos fazem: Oprimem, pois jogam à margem, calam e agridem. Levam os
oprimidos a empregos precários. Reservam-lhes uma educação péssima, que nada
mais serve a não ser para praticar a manutenção de seu estado. Logo, a opressão
é, por assim dizer, a consequência da discriminação que é, por sua vez, a
materialização da ideia preconceituosa. Entendemos, portanto, que o ponto mais
importante, em se tratando de tal questão, é justamente a opressão! E esta será
a palavra chave daqui por diante. As formas de opressão não se manifestam,
apenas, na violência ostensiva. Na verdade, em sua constante busca pela
naturalização, que, por consequência, leva ao seu não questionamento e, por
fim, perpetuação; as mesmas também se manifestam nos pressupostos que sustentam
as ações mais corriqueiras que possamos imaginar. Para ficar mais claro, cabe
aqui um exemplo: Quando um garoto, num jogo de futebol, dirige-se ao outro como
"Viado", após o segundo ter cometido um erro, é provável que este não
tinha a intenção de ser homofóbico ou de apoiar um sistema que mata um LGBT* a
cada 28 horas no Brasil. Contanto, o pressuposto que sustenta a sua ação serve,
exatamente, a este interesse. Como? Vamos analisar: A palavra "Viado"
vem ligada a orientação sexual homossexual. E vem, no caso, como consequência
de um ato negativo, logo como uma forma de repreensão. Como algo que possa ser
usado para agredir. O garoto que foi repreendido, por sua vez, fica irritado,
justamente por ter sido chamado de "Viado". Então notamos que ele
também acolhe a noção homofóbica, por acreditar, mesmo que inconscientemente,
que ser homossexual diminui alguém em sua dignidade e, portanto, julga que ser
chamado de qualquer coisa que seja relacionada à noção de ser homossexual, é
uma ofensa grave. Porém, caso alguém tente explicar como os pressupostos de
ódio se escondem nas mais simples ações, a resposta que terá vai ser "Não,
é apenas a emoção dos jogos, não há mal nisso". E é justamente aí que mora
o perigo. O preconceito, a discriminação, a opressão e, enfim, o ódio, manifestam-se
em TODOS os âmbitos da sociedade. E em todos os lugares tem a mesma função. Não
há um lugar em que é menos ou mais grave. Encarar que, em determinadas
situações, a opressão é tolerável permite que as pessoas sintam-se confortáveis
para demonstrar todo o ódio que sentem, mas reprimem nas relações sociais, sem
fazer nada para modificá-lo. Todos os ódios são ódios. Todos eles merecem ser
combatidos e não entendidos como naturais em algum contexto, pois - em todos os
contextos - tratam do mesmo discurso que fundamenta as centenas de mortes: o
discurso preconceituoso. Outro fato sobre as falas preconceituosas e
discriminatórias é que, aqueles que as reproduzem, tendem a, frequentemente,
defendê-las sob a desculpa da Liberdade de expressão. Quando lhe disserem isso,
não se preocupe. Trata-se de uma mentira gigantesca. Liberdade de expressão e
discurso de ódio não se confundem. A primeira não protege a segunda. Na
verdade, esta começa justamente quando aquela acaba. A partir do momento em que
alguém faz uso de sua liberdade para diminuir alguém em algum aspecto, tentando
atingir-lhe a dignidade, ela perde sua legitimidade e é desconsiderada.
Portanto, não. A liberdade de expressão não está a serviço da opressão. Além
dos problemas supracitados, existe um que é talvez ainda mais grave: a
reprodução do discurso opressor pelos próprios oprimidos. Gays que dizem que
afeminados são os culpados pela homofobia. Negros que se posicionam contra
políticas raciais. Mulheres que são contra a autonomia de suas irmãs de luta
sobre seus próprios corpos, e assim por diante. Trata-se de um meio de
legitimar a dominação aos grupos minoritários, fazendo com que eles mesmos se
coloquem como oprimidos, não resistindo, e, portanto, facilitando o processo
que os marginaliza. Para os que se interessam pelas teorias econômicas,
recomendo que reflitam e pesquisem sobre como o sistema capitalista se utiliza
dos grupos socialmente marginalizados para compor as classes mais baixas, que
vão possibilitar a sua existência, e como ele contribui para que essa
desigualdade seja mantida. Apesar de querer, eu não entrarei nesse mérito. Até
porque já estaria saindo demais do tema que me foi proposto, mas é
interessantíssimo o assunto. Bem, acho que isso é o suficiente para que seja
desenvolvida uma visão crítica sobre o preconceito, discriminação e opressão.
Espero que tenham gostado e espero que, no futuro, quando eu souber mais do que
sei agora, eu possa lhes contar mais um pouco. Enquanto isso, peço que não se
calem! Rebatam quando ouvirem um discurso de preconceito sendo reproduzido. A
única forma de destruí-los é, justamente, desconstruindo-os.
"Nossos lábios são fundamentais contra os
fundamentalismos".
Caio Prata
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