Como qualquer outra pessoa me questionei por vários dias se doía para você tanto quanto para
mim, ou se não fazia diferença nenhuma. Domingo foi o pior, não deixar
transparecer nada para quem eu não queria preocupar. De domingo para segunda
foi quase impossível, chorando no carro de volta para Franca durante uma hora
sem conseguir parar. Depois de terça eu não tinha mais tempo para pensar nisso,
então foi ficando mais fácil. No ano novo, entretanto, foi um grande vazio. Passar
o réveillon numa cidade pacata perto de São Paulo era uma ideia que realmente
me fazia muito feliz.
Você sabe que em 2019 eu conquistei muitas coisas,
você mesmo me parabenizava sempre que possível. E em agosto eu estava tão
grandiosamente orgulhosa de mim mesma. Sobrevivi a 2018. Comecei o curso dos
meus sonhos; dando aulas num programa do governo; dando aulas num programa do
município; líder de classe; “empreendedora” de Letras; cantei no fórum de
educação e fiz todo mundo chorar; apresentei artigo científico no simpósio
internacional de educação; escrevendo outro artigo científico; médias altas na
faculdade; consegui um emprego. Então por que eu não conseguia me sentir feliz
no final do ano?
Em julho, quando te conheci – e te disso isso inúmeras vezes –
eu não queria ninguém. Queria viver a minha vida, e não a de outra
pessoa. Eu estava genuinamente feliz sozinha. Mas você apareceu. Despretensioso,
atrevido. E eu mantive a minha postura, a indiferença que eu fiz um grande
esforço para tentar mostrar que era de verdade. E você foi entrando. E entrando.
E eventualmente eu deixei.
Você sabe que eu tive medo desde o primeiro sinal de
afeto. Compartilhei minhas inseguranças e crises com você tantas vezes, repetidas
vezes. E você sempre com calma e paciência para lidar comigo. Então eu confiei
em você. Pela primeira vez na minha vida não era eu a apaixonada, era você quem,
apaixonado, que me deu abertura.
Ah, e eu confiei. E me joguei. Bastante. Eu tentei
entender o que é o amor. Procurei coisas para ler sobre. Perguntei para amigos.
Fiquei bêbada de vinho e tive grandes conversas sobre o que é amar com uma das
pessoas mais inteligentes e amarguradas com o amor que eu conheço. Criei minhas
teorias, e me desconstruí delas, porque se tem uma certeza que tenho hoje é que é impossível racionalizar o amor.
Quantas crises de
ansiedade eu tive por causa de você, por medo de dar tudo errado. Fiquei chapada
diversas vezes, porque estava feliz, ou porque estava triste vendo tudo acabar.
Bebi muito vinho. Ouvi mais Anavitoria do que eu jamais ouvirei de novo em toda
minha vida. Quantos planos. E um deles tão grande que estava disposta a encenar
um drama-comédia-romântica na vida real com você: "Como reconquistar meu homem
em 10 dias". Cada dia uma prova de amor diferente. Esse era o nível de
desespero vendo tudo desmoronar. Meus amigos ficaram tão empolgados quanto eu,
e realmente queriam atualizações de como estavam as coisas com o passar dos dias.
O trágico é que o plano infalível terminou com o nosso término. Todas as
provas de amor possíveis não foram o suficiente. E eu falo que no sábado,
quando a gente "terminou", eu senti tanta frustração que conseguiria transformar
algo imaterial em físico.
Têm poucas coisas que eu me arrependo na vida, e olha
que eu não consigo me arrepender devidamente nem de ter cursado direito. Mas como
eu me arrependo de falar que te amava. Uma verdade universal para as pessoas
que me conhecem é que eu não consigo falar isso. É uma grande
barreira, sabe? Óbvio que você não sabe, nem eu sei. Só é uma grande barreira. Tão
grande que em 2018, numa conferência com meus amigos, sentada de pijama com
outras centenas de pessoas que eu nunca havia visto na vida, confessei um
dos meus maiores segredos: eu acho que não sei o que é amar. Eu não sei qual o
sentimento de amar. O que eu deveria sentir? Por que eu não consigo falar que
amo meus pais? Por que eu não consigo demonstrar nenhum tipo de afeto
com pessoas que eu sei que são importantes para mim? Eu vou saber o que é
amar um dia?
E eu sou plenamente consciente que isso é uma questão para
pessoas próximas a mim. Minha vó cobra que eu fale mais isso. Meus pais sempre dizem
quando me ligam e eu só respondo com “também”. Meu amigo ficou emocionado no
aniversário dele, porque eu disse que o amava e ele ficou “Muito feliz,
porque a gente se conhece há tempos e você nunca falou isso pra mim”. Só sei
demonstrar afeto com meus gatos.
Mas eu disse eu te amo pra você. E a verdade
é que eu quis falar que te amava durante todos os dias que nós passamos juntos,
e me senti numa encurralada quando percebi que eu nunca mais teria a chance de
confessar esse grande segredo obscuro para você, segredo esse que eu nunca deveria
ter confessado. Não acho que você merecia ouvir isso de mim. Pesado, mas é verdade.
Porque hoje eu me sinto uma grande idiota por ter dito, e não acho que as pessoas
deveriam se sentir idiotas por falarem que amam alguém.
Como nós não terminamos
por conta de brigas, ou até - arrisco aqui a dizer – porque nós queríamos de fato
terminar (ou nós queríamos?), achei que em algum momento conversaríamos
novamente. Como eu senti sua falta. E, de repente, veio
esse grande choque de realidade quando vi que a real era que você estava me
expulsando da sua vida. E hoje, uns meses depois, você conseguiu me tirar por
completo. E todo esse monólogo tem apenas a finalidade de dizer que, por conta
da sua decisão unilateral de nos expulsar da vida um do outro, fez com que você
também não tenha mais espaço na minha vida, e que muito obrigada por alguns
dias muito bons nos quais eu me senti a pessoa mais feliz do universo, mas acho
que (assim como você mesmo disse, e eu neguei na hora) você não mereceu todo o
amor que eu te dei.
Eu deixei você entrar na minha vida e te dei um pedacinho
de mim. Eu banquei o papel de apaixonada e comprei o conto de fadas, e eu
acreditei nesse grande drama-comédia-romântica, só que muito provavelmente eu teria
tido um final de ano mais feliz, e estaria mais tranquila hoje, se você não
tivesse existido na minha vida. Você escolheu me tirar da sua vida sem nenhum
motivo, quando a única coisa que eu te dei foi amor.
E do que vale viver
um amor, se te traz apenas dor?
Esse é o adeus final. Finalmente.
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