Um acervo que começou no dia 7 de dezembro de 2010 e que acompanha vários momentos da minha vida, deixando registrado a transcrição de memórias, nós na garganta, revoltas, e um mundo de fantasias.
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Simplex, quae in vita
Há
alguns dias estava no ônibus, indo para a faculdade, e me deparei pensando em algumas
coisas, as coisas mais simples da vida. Quem anda de ônibus, por exemplo, sabe
que, na maioria das vezes, são os mesmos cobradores, os mesmos motoristas, os
mesmos trabalhadores, os mesmos estudantes e, com o passar do tempo, você
percebe que cria laços com todas essas pessoas. Depois de duas semanas de aula
me vi amiga do cobrador do ônibus, que, todos os dias, no mesmo horário, estava
lá para me atender, um velhinho simpático, que certa vez, vendo-me segurar os
quilos do meu Vade Mecum (estudantes de direito entenderão), quase desequilibrando,
ofereceu ajuda e ainda brincou que era coisa demais para colocar na cabeça (e
realmente acho que morrerei sem saber todas as leis e artigos existentes). Mas
a verdade é, que nesse dia indo para a faculdade, por mais mórbido que seja,
pensei em como ficaria quando o senhor não estivesse mais lá, todas as manhãs,
no mesmo horário, para me atender, e talvez eu vá até mesmo antes dele – nunca
se sabe o dia de amanhã, isso é fato – entretanto, percebi que realmente
ficaria triste, triste em saber que não veria mais o tal velhinho que até hoje
não perguntei o nome. Por trás disso, pensei na falta de cumplicidade existente
hoje, no mesmo ambiente público do ônibus, vejo pessoas que entram com a cara
amarrada e saem do mesmo modo (nada contra os dias ruins dos outros, todos
possuem estes, todavia, isso, constantemente, não é saudável). Precisa-se de mais “amor gratuito” e menos
“ódio gratuito”. Amor e ódio são palavras fortemente antagônicas e fortes por
si só, mas é a realidade. Hoje se espalha tanto o ódio gratuito pelos outros,
pelas coisas, pela vida, por tudo, mas, dificilmente, (em comparação a todo esse
ódio) vê-se as pessoas espalhando um pouco de amor, amor por desconhecidos, por
qualquer um na rua e, obviamente, para os mais próximos também. Não custará
nada dar um bom dia, agradecer mais aos serviços que são prestados, dar um
sorriso singelo a um estranho na rua, e, na verdade, nós nem sabemos o poder
que isso pode ter na vida de alguém. Voltando a história do tal velhinho
cobrador do ônibus, nós nunca sabemos – e nunca saberemos – quanto tempo nós
temos ou quanto tempo teremos com quem conhecemos, ou com qualquer outra pessoa
e nunca é tarde para, simplesmente, sair espalhando um pouco de amor por aí. Se
treinássemos isso como treinamos para sermos cada vez mais desconfiados,
individualistas e rabugentos, não teríamos tanta tragédia estampada no mundo.
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